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Gilmar Mendes assume o papel de coveiro dos grandes escândalos da República

Há ministros que julgam os fatos. Há ministros que parecem julgar as investigações.

No caso Master, Gilmar Mendes voltou a assumir um papel que os brasileiros já conhecem bem.

Enquanto André Mendonça descrevia uma estrutura com “contornos de máfia” e características de “crime organizado mafioso”, Gilmar preferiu enxergar os fantasmas da Lava Jato. Como se o principal problema não fossem os fatos investigados, mas o risco de a investigação avançar…

Foi uma cena constrangedora assistir Gilmar Mendes destilando contorcionismos jurídicos para colocar mais uma pizza no forno.

De um lado, André Mendonça, um ministro lembrando que o Supremo estava diante de um caso concreto. Do outro, Gilmar Mendes, na tentativa de transformar o julgamento em mais um capítulo da interminável disputa sobre a Lava Jato.

A resposta de André Mendonça foi precisa:

“Não estamos aqui a julgar a Lava Jato.”

Era exatamente o que precisava ser dito.

Porque o caso Master não é a Lava Jato. E não deveria ser tratado como tal.

O Brasil já assistiu muitas vezes ao mesmo roteiro. Primeiro questiona-se a investigação. Depois questionam-se os investigadores. Em seguida, os investigados e eventuais culpados saem ilesos. E o escândalo é esquecido, com a catinga da impunidade no ar.

Foi assim que algumas das maiores investigações do país perderam força.

Por isso a postura de Gilmar Mendes chama atenção. Diante de um caso que o próprio relator associou a práticas com características mafiosas, sua preocupação pareceu estar menos nos fatos e mais nos instrumentos usados para apurá-los.

André Mendonça seguiu o caminho oposto. Trouxe o debate de volta para os autos. Falou da gravidade das suspeitas, defendeu a continuidade das apurações e recusou a tentação de transformar o caso Master em uma discussão sobre Curitiba.

E fez mais.

Quando relembrou um conselho dado pelo próprio Gilmar Mendes sobre a coragem necessária para ser ministro do Supremo, deixou claro que não estava disposto a se curvar ao peso político de um julgamento dessa magnitude.

A derrota da tese defendida por Gilmar foi animadora para um país que precisa de um reset moral e ético.

Não porque ministros devam vencer ou perder disputas pessoais, mas porque o país precisa que investigações graves cheguem ao fim, com os devidos culpados pagando na forma da lei.

Nenhuma democracia séria combate a corrupção, o crime financeiro ou estruturas mafiosas enfraquecendo apurações antes da hora para proteger um ou outro “amiguinho”.

Gilmar Mendes ficou vencido, e André Mendonça destacou que não precisa de delação premiada e que confia nas investigações, mas não deixou de lado a alfinetada, lembrando que, em outros momentos, por ordem de outro ministro do STF, um réu foi preso para se extrair uma delação e que ele não se presta a esse papel, segundo ele, abjeto.

Não citou explicitamente o nome, mas a referência era clara: Mauro Cid, que foi preso e ainda teve seus familiares ameaçados para delatar, ou, como ele próprio disse em áudio publicado pela revista Veja, que precisaria dizer o que o ministro Alexandre de Moraes queria que fosse dito.

Por fim, relembrou que há décadas serve à Justiça e que não tem pretensões de holofotes e entrevistas, e que sua única pretensão é seguir a lei. Toda vez que a tese de investigar os fatos até o fim derrotar a tese de interromper ou enfraquecer investigações, a República terá motivos para comemorar.

Porque o Brasil não precisa de coveiros para seus escândalos.

Precisa da verdade.

Fonte: Renato Cunha Lima

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